B3 Cria Categoria 'Investidor Eternamente Otimista': Quem Mantiver Posição Perdedora por Mais de 5 Anos Recebe Certificado de Honra ao Mérito do Prejuízo
Distinção reconhece 'excepcional comprometimento com a tese de investimento independente dos resultados'; cerimônia anual no auditório da B3 vai homenagear os 50 casos mais extremos
SÃO PAULO (Gazeta do Prejuízo) — Num movimento que analistas descrevem simultaneamente como "um reconhecimento sincero" e "uma piada que virou resolução de diretoria", a B3 — Brasil, Bolsa, Balcão — anunciou nesta quinta-feira a criação da categoria "Investidor Eternamente Otimista" e do correspondente "Certificado de Honra ao Mérito do Prejuízo", distinção a ser conferida anualmente a investidores pessoa física que mantiverem posições com resultado negativo por período igual ou superior a cinco anos sem efetuar venda ou redução de posição.
A premiação, que a B3 descreve em comunicado oficial como reconhecimento ao "excepcional comprometimento com a tese de investimento independente da evolução dos resultados", terá cerimônia inaugural no auditório principal da bolsa, na Rua XV de Novembro, em São Paulo, prevista para setembro de 2026, com capacidade para 300 convidados e serviço de coquetel patrocinado — conforme nota de rodapé do comunicado — por "corretoras parceiras que também não têm culpa".
O CERTIFICADO
A distinção mais aguardada da cerimônia é o Certificado de Honra ao Mérito do Prejuízo, concedido nas categorias Ouro (posição deficitária acima de 5 anos), Diamante (acima de 8 anos) e Platina (acima de 10 anos com prejuízo nominal acima de R$ 100 mil). O certificado físico, produzido em papel-moeda reciclado — especificação que a B3 afirma ser "simbólica e adequada" — traz o nome do homenageado, o ativo mantido, o período de manutenção e o percentual de perda acumulada.
República Federativa do Prejuízo
Ministério da Educação Financeira Questionável
CERTIFICADO
Certificamos que
Antônio Carlos Hodl Ferreira
concluiu com êxito o curso
“Certificado de Honra ao Mérito do Prejuízo — Categoria Diamante (Posição Deficitária: 8 anos e 3 meses)”
com carga horária de 72.540 horas de sofrimento paciente e resoluto e nota final Prejuízo acumulado: -78,3% — Nota de Comprometimento com a Tese: 10,0.
Diretoria de Reconhecimento de Perdas Históricas — B3 S.A., Brasil, Bolsa, Balcão
Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros — 'O mercado recompensa a paciência. Eventualmente. Talvez.'
Aprovado
✓
CVM/LOSS
Este certificado não tem validade legal, acadêmica, profissional, moral ou espiritual. Emitido pelo Sistema Nacional de Certificação de Prejuízos (SNCP).
Antônio Carlos, 62 anos, aposentado de Ribeirão Preto, comprou ações de uma empresa de telecomunicações em 2017 "porque o 5G estava chegando e ia valorizar tudo". O 5G chegou. A empresa foi incorporada por outra empresa, que foi incorporada por outra empresa, que foi rebatizada duas vezes e hoje opera com EBITDA negativo e um CEO que "está confiante nas perspectivas do segundo semestre" desde 2020. Antônio Carlos mantém 14.700 ações. "É para o longo prazo", confirmou à Gazeta do Prejuízo.
A REUNIÃO
A decisão pela criação do certificado foi tomada em reunião extraordinária do Conselho de Inovação de Produtos da B3 realizada no início do mês. A ata, obtida pela reportagem via solicitação formal, revela que o debate foi, no mínimo, diversificado em termos de posicionamentos.
Documento Corporativo Oficial
ATA DE REUNIÃO
Ata da 47ª Reunião Extraordinária do Conselho de Inovação de Produtos B3
1. Presentes
- 01.Cláudio Bolsa (Presidente do Conselho)
- 02.Dra. Marina Spread (Diretora de Produtos)
- 03.Eng. Roberto Tick (TI e Infraestrutura)
- 04.Fernanda Margem (Jurídico)
- 05.Prof. Hideo Viés Confirmatório (Consultor Externo — FGV EAESP)
2. Pauta
- 1.1. Apresentação da proposta 'Investidor Eternamente Otimista'
- 2.2. Critérios de elegibilidade para o Certificado de Mérito do Prejuízo
- 3.3. Logística e patrocínios da cerimônia inaugural
- 4.4. Item levantado pela Dra. Marina: 'Não deveríamos estar preocupados com os homenageados?'
- 5.5. Assuntos gerais
3. Deliberações
- 1Aprovado por unanimidade: criação da categoria com critério mínimo de 5 anos em posição deficitária e prejuízo nominal acima de R$ 50.000 ou percentual acima de 40%
- 2Aprovados três níveis: Ouro (5+ anos), Diamante (8+ anos), Platina (10+ anos / R$ 100k+ de prejuízo nominal)
- 3Aprovado coquetel patrocinado por corretoras; serviço de psicólogo presencial durante a cerimônia foi aprovado após emenda da Dra. Marina
- 4Item 4 considerado 'fora do escopo de inovação de produto' e arquivado. Dra. Marina protestou formalmente.
- 5Aprovado troféu em forma de vela japonesa vermelha descendo; Prof. Hideo sugeriu também adicionar sombra inferior 'para dar esperança'
4. Encerramento
Encerramento às 17h41. Presidente Cláudio Bolsa declarou: 'Isso vai ser histórico. No sentido literal.' Dra. Marina saiu sem comentar.
Ata lavrada e aprovada pelos presentes nesta data — Documento sujeito à revisão dos fatos
OS CRITÉRIOS
Para ser elegível ao Certificado de Honra ao Mérito do Prejuízo, o investidor deve atender a requisitos que a B3 detalhou em documento de 34 páginas e que podem ser resumidos em três condições: ter mantido a posição sem interrupção pelo período mínimo estipulado por categoria; ter o prejuízo nominal devidamente registrado nos sistemas da CSD (Central de Custódia e Depósito); e ter respondido ao formulário de inscrição disponível no portal da B3, que inclui a pergunta — não obrigatória, mas "fortemente encorajada" — "Descreva em até 200 palavras por que você continua confiante na tese".
A B3 informa que, nas primeiras 48 horas após a abertura das inscrições, 14.230 formulários foram enviados. Das respostas à pergunta sobre a tese, 67% mencionavam "longo prazo", 23% citavam "recuperação iminente" e 10% deixaram o campo em branco, o que a diretoria interpretou como "otimismo transcendente, além das palavras".
Pesquisa realizada pela própria B3 em 2024 revelou que 23% dos investidores pessoa física mantêm pelo menos uma posição com desempenho negativo por mais de 3 anos sem qualquer revisão de tese. Quando perguntados sobre o motivo de não venderem, 67% responderam "está se recuperando", 24% responderam "é pra longo prazo" e 9% afirmaram não saber mais em qual corretora a posição estava. Esse último grupo foi considerado inelegível para o certificado por "excesso de otimismo passivo não documentado".
A POSIÇÃO DA B3
O presidente do Conselho de Inovação de Produtos, Cláudio Bolsa, concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Prejuízo na qual explicou a filosofia por trás da iniciativa com uma seriedade que, segundo nossa repórter presente, "era genuína o suficiente para ser perturbadora".
"Nós da B3 acreditamos que todo investidor merece reconhecimento por sua jornada. E se essa jornada envolveu 7 anos segurando ações de uma empresa de logística que hoje vale 11% do que valia na compra, esse investidor demonstrou uma resiliência que eu, pessoalmente, acho admirável. Se há algo que o mercado financeiro precisa, é de mais pessoas que não vendam no suporte. Independente de o suporte ter rompido em 2019."Cláudio BolsaPresidente do Conselho de Inovação de Produtos — B3 S.A., Brasil, Bolsa, Balcão
O FENÔMENO CULTURAL
A criação do certificado evidenciou um fenômeno que economistas comportamentais chamam de "efeito tese irrevogável" — a tendência de investidores individuais de manter ativos com desempenho negativo não por análise racional, mas pela incapacidade psicológica de reconhecer o erro e pela esperança matematicamente questionável de que "vai voltar". O fenômeno é amplificado, segundo pesquisadores, pelo ecossistema de conteúdo financeiro online, que regularmente apresenta histórias de recuperações espetaculares como inspiração e raramente discute os 97% de casos em que a posição nunca voltou.
O canal do YouTube "Guru do Patrimônio BR" publicou, horas após o anúncio da B3, um vídeo que alcançou 2,3 milhões de visualizações em 72 horas.
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2,3 milhões de visualizações
O vídeo, que a Gazeta do Prejuízo assistiu integralmente em nome do jornalismo, apresenta uma análise de 17 minutos sobre os benefícios de "jamais realizar o prejuízo" e conclui que "o ativo que você ainda não vendeu com prejuízo é um ativo que ainda pode recuperar", raciocínio que economistas classificam como "tecnicamente verdadeiro, emocionalmente confortante e financeiramente perigoso quando a empresa está em recuperação judicial".
A cerimônia de setembro promete ser o evento mais singular da história da B3. Trezentos convidados, um psicólogo de sobreaviso, coquetel patrocinado por corretoras e 50 homenageados segurando troféus de vela vermelha descendo. O Antônio Carlos de Ribeirão Preto já confirmou presença. Ele vai de gravata. "Uma forma de respeito ao processo", explicou. Suas 14.700 ações subiram 0,3% na semana do anúncio. Ele considerou isso "confirmação da tese".
💬 Comentários dos Leitores
AntonioCarlasHodl
há 5h
Sou eu do artigo. Confirmo presença em setembro. Minhas ações subiram 0,3% ontem. Ajustando o target de preço para R$ 18. Eram R$ 17,80 quando comprei em 2017. Progressão consistente.
InvestidorDiamante2016
há 4h
Minha posição em OIBR3 completa 9 anos em agosto. Tenho direito ao certificado Diamante. Preenchi o formulário. Na pergunta 'por que ainda acredita na tese' escrevi 'porque vender significaria admitir que errei e eu não errei'. A B3 marcou como 'resposta válida'.
DraMarinaSpread
há 3h
Sou a Dra. Marina do artigo. Minha preocupação foi arquivada como 'fora do escopo'. Peço que considerem que 14.230 pessoas inscreveram-se para um prêmio por terem perdido dinheiro. Isso me preocupa. Arquivem também se quiserem.
GuruPatrimonioBR
há 1h
Meu vídeo atingiu 2,3M de views. Nos comentários 40% disseram que vão parar de vender no suporte. 30% disseram que nunca venderam e não pretendem. 30% perguntaram onde fica a OIBR3. O conteúdo está funcionando.
B3Oficial
há 30min
A B3 esclarece que o serviço de psicólogo na cerimônia é voluntário e não obrigatório. Mas vai estar lá. Por precaução. Com agenda cheia.